Entrevista #Comapalavra: Bruna Alcântara

Atualizado: Mar 16

Há quase dez anos na ativa, Bruna Alcantara vem se destacando na cena com seu trabalho politizado, contestador e de estética forte. Aqui, ela abre o jogo e nos fala um pouco sobre seu trabalho, suas posições políticas e sobre sua primeira exposição individual.



Bruna, fale um pouco sobre como e por que você passou a fazer lambes e intervir nas ruas. O que te motivou a fazer trabalhos em locais públicos?

Eu sempre gostei de comunicar, não a toa, sou jornalista. A necessidade de transmitir uma mensagem, de informar, de questionar e de fazer o próximo refletir, são as coisas que busco. A rua está ai pra isso: o velho e bom clichê — o lugar mais democrático para quem quer ser visto ou “conversar” com o público. Meus primeiros lambes acho que foram em 2010. O que diferencia o público do privado é que quando você coloca algo na rua, outra pessoa pode ir lá e mudar o que foi feito, ou intervir, ou tirar: isso é diálogo, isso é o que eu busco como alguém que faz uma forma de arte que não é tão só estética, mas que tem uma causa por trás. A igualdade de gênero, dentro de uma sociedade patriarcal, precisa de diálogo. Além disso, é também uma maneira de dizer para outras mulheres (qualquer uma delas que transite pelo espaço urbano) que elas não estão sozinhas. É quase um desejo de abraço, um carinho no caminho para o trabalho, na ida pra casa ou na fila do pão.


Quem vê seu trabalho sabe exatamente do que se trata. Feminismo, maternidade, antirracismo, e mais recentemente, antibolsonaro. Estes temas sempre estiveram presentes na sua obra?

Temas políticos são meu foco, claro. Mas acho que o eixo central é a igualdade de gênero, o lugar da mulher na sociedade. Meus auto-retratos falam de situações pelas quais passei enquanto mulher — são meu jeito de buscar identificação com outras pessoas. Quando falo de racismo, por exemplo, falo de feminismo negro, de escravidão, de dados atuais que atingem a mulher negra no país (tomo o maior cuidado pra não atravessar o lugar de fala de ninguém). Quando falo do presidente eleito, tenho foco nas políticas e falas e absurdos ligados ao universo feminino na gestão dele. Mas também tem muito de jornalismo nisso: quando uma notícia é o centro dos jornais do dia, ou da semana, logo penso em como expressar aquilo: no texto e na arte visual.


Política é de fato um assunto que muito me interessa e que ronda meus pensamentos enquanto ser humano que busca um lugar melhor para viver.

Levando em consideração o momento polarizado que estamos passando, você já teve algum tipo de problema por causa do caráter contestador dos seus lambes? Sim! Na época das eleições eu recebia mensagens privadas ou nos comentários das redes sociais. O clássico “artistinha, vai deixar de mamar nas tetas da lei Rouanet”. Mas nas ruas, o que mais acontece é que meus lambes não duram muito tempo, principalmente os que têm a cara do Bolsonaro.




Talvez a maior característica estética do seu trabalho seja o uso do bordado. Você já praticava antes de fazer e intervir com lambes? Para você há um significado que vá além do elemento estético?

Eu aprendi a bordar com a minha mãe — e eu ainda era uma criança — sendo ensinada a fazer toalhas e panos de prato. Parece que dentro da nossa sociedade, uma menina é ensinada a ter esse tipo de “talento”. Fiquei anos sem praticar. O bordado só voltou a minha memória quando fiquei grávida: eu estava sozinha, isolada, em outro país. Foi quando fui cursar mestrado em Portugal e descobri que estava grávida 15 dias antes de me mudar.



Foi esta solidão e o excesso de estudo que me fizeram buscar um trabalho manual para relaxar. Eu não sei exatamente de onde veio a vontade de bordar nas fotos, mas foi a união de algo que eu amo (a fotografia), com uma lembrança fraternal que me remetia ao passado, à infância e a maternidade.


Como meu trabalho é ligado a feminismo, acho irônico (e acredite, me controlo pra ser menos irônica em todas as funções do meu dia a dia) que um trabalho manual culturalmente ligado às mulheres, seja usado para transmitir este tipo de mensagem de igualdade entre os gêneros. Então, há sim na escolha desta linguagem, mais do que o apelo estético.



Além da forte presença do autorretrato, você também usa fotografias antigas, algumas históricas, outras que parecem ser de álbuns de família. Fale-nos um pouco desse processo de criação. Como se dá a escolha das imagens?

Eu sempre fui louca por histórias. Gosto de contá-las. As fotografias da minha família, daqueles parentes que eu nem sei quem são, sempre fizeram parte do meu baú do tesouro. Guardo tudo comigo desde a infância.


Lá em Portugal eu achava álbuns de fotos antigas no lixo. Depois de volta ao Brasil, um dos meus passeios favoritos é ficar dentro de sebos. Parece que eu posso recriar histórias, criar versões, fazer mulheres que têm coragem de falar e de questionar.


Repressão, desespero, casamentos forçados, homens no centro da mesa são alguns dos exemplos das situações que encontro nestas fotos antigas. Mas o quesito primordial, que me faz escolher uma foto, é sem dúvidas o olhar das pessoas.

E tem situações que as fotos me escolhem. Eu as ganho e elas são bem vindas.

Vale lembrar que eu também trabalho com colagem. Então o mundo das revistas/livros antigos são um parque de diversões pra quem quer criar.


Eu vejo muito a influência da arte contemporânea, talvez mais do que de street art. Estou certo nisso? Poderia falar sobre essas influências?

Eu já ouvi muito que não cresci nas ruas, que não sou da rua. De fato, cresci numa cidade de 30 mil habitantes e na frente da casa onde vivia, não tinha nem asfalto e tampouco gente passando (risos). A rua entrou na minha vida tarde — quando eu tinha 17 anos e me mudei pra cidade grande pra estudar. De lá pra cá, eu sou parte da rua sim! Lógico que sofro influências da arte de rua: Ela está em todos os cantos, prédios, becos e pontes. Também fica meio óbvio que meus trabalhos preferidos são os que tem relação com o feminino. Na rua acho os grafites da Criola, Tanara Djurovic e Priscila Amorim um exemplo de feminino, delicadeza e força. Tem os lambes com fios tão potentes da mexicana Victoria Villasa. Ou as intervenções da maravilhosa Sil.vana, do Maranhão. Fora das ruas (ou não), as porcelanas com arte têxtil da Alison Hunter; as brutalidades coloridas da Bárbara Scarambone e a potência sem fim da Rosana Paulino, que é sem dúvidas a minha contemporânea favorita.


Recentemente você fez uma exposição individual, Derivações Para Uma Mártir. Conte-nos um pouco sobre ela.

Eu recebi o convite de um pessoal de Itaquera, num espaço gerido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do estado de São Paulo. Foi, está sendo, minha primeira exposição individual no Brasil. Então eu chamei a Michele Miqueletto (que havia sido curadora de uma coletiva que fiz na Galeria Recorte) para ser a curadora. Nós decidimos fazer um apanhado dos meus últimos cinco anos de trabalho, que vão desde o período da minha gravidez, até hoje. São quase 50 trabalhos que foram levados para a Oficina Cultural Alfredo Volpi: quadros, lambes, vídeo e instalação.



Quando cheguei lá e vi de perto o lugar, fiquei muito feliz, porque é um centro de Cultura no meio da periferia de São Paulo. E este espaço realmente transforma a sociedade através da educação e da arte, porque leva cursos de história, dança, bordado, pintura pra uma camada da população tão pouco assistida. Foi uma renovação da minha fé: a arte salva.

O Lambes Brasil é um canal independente. Feito por e para artistas com o propósito de fomentar e valorizar o lambe-lambe no contexto da Arte Urbana Brasileira, fortalecer o cenário aos artistas e produtores, gerar reconhecimento da técnica e prática artística perante o público, o mercado, os órgãos governamentais, empresas, entidades culturais e demais linguagens artísticas.


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